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Opinião

Angola faz sete anos de paz, que comentário em Cabinda?

A paz alcançada em Angola, de Soyo ao Cunene, suscita um duplo comentário em Cabinda.

Iº Como africanos, ela é vista como um esforço duma Nação em evolução, pois reveste um significado político de elevado valor e um custo social inestimável. Os Africanos encorajam os seus irmãos angolanos a consolidarem esta conquista, embora alcançada com armas. Os sete anos demonstraram alguma convivência possível entre irmãos desavindos. Em abono da verdade, somos a reconhecer que os receios que tínhamos, porque uma paz obtida com o esmagar dos vencidos contém sempre em si o gérmen de futuras violências,

 revelaram-se infundados. Parabéns aos angolanos que, dum extremo ao outro, desfrutam, agora, este bem. Os vencedores manifestaram alguma tolerância e os vencidos preferiram silenciar a sua dor e pena para preservar o entendimento. As eleições, embora os resultados não tenham reflectido a vontade dos eleitores, foram, porém, um dos pontos culminantes deste processo de reangolanização. Contudo, o caminho é ainda longo, porquanto o conflito angolano foi confundido com o conflito armado. Calaram as armas de Soyo ao Cunene, mas o Povo Angolano necessita reencontrar-se para cristalizar o processo de reangolanização da Nação.

2º Como Cabindas, os sete anos de Paz em Angola foram um autêntico calvário para o Povo que somos. Sete anos de incertezas absolutas e promessas idosas; de um coarctar das liberdades e de negação identitária, de incompreensões e prepotências; legalização de injustiças, de autoritarismo e de aldrabices, e também de luto e dor.
  A paz em Angola, alicerçou, infelizmente, a falsa teoria militarista: fazer a guerra para acabar com a guerra. Com esta tese, milhares de Cabindas e angolanos continuam a ser sacrificados; rios de dinheiros vão para os dois Congos bloquear a retaguarda

 à FLEC e manter aqueles Governos distanciados do sofrimento dos seus irmãos de sangue. Logo que foi alcançada a paz em Angola, em Abril de 2002, Cabinda tornou-se no maior palco de combates violentos, sobretudo, nos três primeiros anos com graves consequências e incidências sobre a dignidade e a vida da pessoa humana. Parte do material bélico e de homens armados do exército angolano elegeu Cabinda como a sua Capital. O território é um dos mais adensados do planeta em termos de número de homens armados por Km2 ou ainda por homens armados por mil habitantes. 
Dois acontecimentos marcaram os sete anos de pseudo-paz em Cabinda.

a) A assinatura do Memorando de Entendimento com o já conhecido rosário de sequelas: crise na Igreja Católica, extinção da Mpalabanda; hostilização e infernização da vida daqueles com ideias contrárias ao Memorando; legião de processos por crimes contra a segurança do Estado, sinais visíveis de riqueza em algumas famílias afectas ao Partido-da-situação, um diluir das lídimas aspirações do Povo de Cabinda; promoção de líderes não representativos e propaganda audiovisual falaciosa de haver paz de sobra também em Cabinda.

b) Eleições legislativas: Eram genuinamente angolanas. Não podiam, contudo, ser encaradas de ânimo leve. Nesta conformidade, constituíram uma oportunidade para fazer passar a mensagem de que o Povo de Cabinda não aprovava a forma militarista como o MPLA geria o dossier-Cabinda. A ideia era contestar o poder imposto através do voto e participar na possibilidade de gerar uma nova elite, capaz de dialogar com os Cabindas sem armas nem baionetas.
Sete anos que escondem muita coisa.Com a paz a chegar em pedaços, as ilhas que este tipo de processo cria, estão longe de representar a PAZ que o Povo apregoa. Por exemplo, a acalmia aparente no Sul do território pode ser justificada pelo pavor que o aparelho repressivo inspira. A submissão criada pela violência não pode ser interpretada como tranquilidade ou, ainda, ausência de tumultos enquanto a incerteza pairar. A história mostrou-nos, nestes últimos tempos, que o Povo Binda reagiu sempre de um modo assaz inesperado todas as vezes que lhe é dado um espaço de liberdade.

Este estado de sítio terá inevitávelmente consequências graves no futuro. Quanto mais tempo durar esta situação desnecessária, longuíssimos anos também serão necessários para que no futuro seja estabelecido um ambiente de paz, tranquilidade e confiança entre Cabindeses e a classe dirigente angolana que elege manter o status quo.
Os legítimos representantes do Povo de Cabinda continuam a apelar o governo de Angola ao diálogo. “Queremos construir um futuro livre de traumas, violência e rancores acumulados durante estes longos anos de conflito angolano-cabindês”. Como Povo que somos, acreditamos, e a experiência nos ensina, que o diálogo prevalecerá e Cabinda continuará a ser o POVO QUE É, com “a terra (espaço comum), a História (memória colectiva) e a identidade (rosto específico).

Agostinho Chicaia
Presidente da Extinta Mpalabanda, Associação Cívica de Cabinda (MACC)
Bairro Cabassango,Caixa Postal 328
Cabinda, Angola
Celular: 244-923667169
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