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Sinais dos tempos
Cabinda: Mawete  e “Nandó” inauguraram o Estádio Nacional de Chiazi  sob protestos
Assim que Mawete pega o microfone, o povo entou vaias; e uma boa parte da arquibancada abandonou o recinto desportivo, quando O Presidente da AN começou a discursar.
Por José Marcos Mavungo

 Actos de protesto marcaram a inaguração quarta-feira, 30 de Dezembro,  do Estádio do Chiazi, em Cabinda, que vai albergar os jogos do grupo B da Taça das naçoes (CAN), onde irão medir forças as selecções do Côte d’Ivoire, Burkina Faso, Ghana e Togo.
Os protestos terão sido centrados na política de desenvolvimento de Cabinda implementada pelo governo, segundo testemunhas.
A mesma fonte diz que tudo começou depois do habitual descerrar da placa comemorativa e identificadora do estádio e do discurso de Higino Carneiro, quando o Governador de Cabinda, Mawete João Baptista se levantou para discursar. Foram estrondosas a vaias recebidas pelo Governador de Cabinda, em vários momentos do seu discurso. Por entre os protestos ouvia-se claramente: “Queremos porto e não estádio. Nós não ganhamos nada com o estádio. Este estádio é vosso. Nós queremos um porto”.


Quando chegou a vez do Presidente da Assembleia Nacional, Fernado Dias dos Santos “Nandó”,  uma boa parte da arquibancanda começou a abandonar o recinto do estádio. Para evitar mais constrangimento, “Nando” se viu obrigado a abreviar o discurso em três minutos.
O Estádio Internacional do Chiazi, que se situa no bairro do mesmo nome, a catorze  quilómetros da Cidade de Cabinda, na Estrada que liga  esta cidade a vila do Cacongo, tem um troço de quatro faixas de rodagem (duas em cada sentido) com separadores de alumínio, sinalização no pavimento e iluminação pública, o que permitirá maior fluidez e segurança do tráfego automóvel.

Com capacidade inferior aos de Luanda (50 mil espectadores) e Benguela (35 mil), o recinto do estádio pode albergar 20 mil espectadores e comporta 204 espaços para VIP, 68 para deficientes e 104 para a imprensa.
No seu discurso durante a cerimónia de inauguração, Mawete João Baptista considerou o estádio do Chiazi “uma infras-estrutura gigantesca que orgulha qualquer angolano”. Mas a vaia demonstrou que empolgação da população com a construção do Estádio do Chiazi e a realização dos jogos do CAN 2010 em Cabinda não pode ser confundida, como querem os governantes angolanos, ao apoio desta mesma população à actual governação ou à satisfação com a terrível situação económica e social enfrentada pela populações de um território escandalosamente rico em recursos naturais.
Sabe-se que , em meados de Janeiro de 1974, o Eng. Santos e Castro, então Governador-Geral de Angola, lançou a primeira pedra do que deveria ser o porto de longo curso de Cabinda. Apenas iniciada, a obra conheceria grandes dificuldades com o 25 de Abril de 1974, e seria posteriormente abandona pelo Governo de Angola, que acabará por levar o material para reparação do Porto de Lobito.
Tendo em conta as potencialidades e necessidades de Cabinda, várias  propostas foram apresentadas ao Governo Central pelos governantes que se sucederam no Governo de Cabinda desde 1975. Antes de Aníbal Rocha e Mawete João Baptista, Augusto Tomás(1992-1995) já tinha apresentado a maqueta do Porto de Cabinda, mas este projecto foi submetido ao Governo Central para não se falar mais dele; depois, veio José Amaro Taty (1995-2002), sem sucesso. Com Aníbal Rocha, avançou-se a ideia de se construir o Porto em 2005, mas acabou-se por não se falar mais no assunto, para depois, no dia 8 de Dezembro de 2006, ouvirmos o então Primeiro Ministro Nandó, a falar de um “novo estudo de viabilidade.”  Hoje, veicula-se a ideia de se construir o Porto em 2010, segundo fonte do Ministério do Plano, que preferiu guardar o anonimato.
O empreendimento económico dos governantes em Cabinda assentou-se numa política mineira e petrolífera, e numa política florestal e agrícola subentendida por uma política de transporte e industrial decorrente. Também, de assinalar o Especial Regime Alfandegário, pelo qual as alfândegas cobram, em Cabinda, direitos inferiores aos que cobram em Angola. Mas a população tem sentido de que de prático o governo tem contribuído muito pouco, visto que apesar de responder por 80% da produção de petróleo de Angola, tais recursos escoam pelos ralos da corrupção e burocracia de Luanda e o desenvolvimento de Cabinda ainda é um sonho distante.
Hoje, Cabinda, a grande fonte de rendimento de Angola não tem uma economia sustentável, a dependência em relação aos dois Congos ocasiona uma fuga considerável de divisas e bastantes dissabores para as suas populações. Concebido há mais de quinze anos, o Projecto do Pólo Industrial de Fútila só foi aprovado a 31 de Maio de 2006, pelo Conselho de Ministros, e o arranque das actividades tem dado passos muito lentos. E os governantes continuam reticentes sobre a ideia de um aeroporto Internacional para Cabinda. Por outro lado, a escassez de gás, gasolina, energia eléctrica e água tornou-se fenómeno moda em Cabinda.
A preocupação prioritária do regime no decurso do CAN 2010 e no rescaldo do mesmo, consiste, entre outros, em prevenir manifestações populares de agitação ou de violência – um objectivo destinado a ocultar a realidade do prosseguimento de acções armadas da Flec e do descontentamento popular. Entretanto, a tensão popular sobe. Os actos de protesto começam a não escolher eventos. “Mawete” e “Nando” apagaram o mito histórico ao serem vaiados na inauguração do Estádio do Chiazi. Tudo deixa crer que o policiamento dos jogos vai ser uma nota marcante do CAN 2010 em Cabinda.
Porém, os problemas em Cabinda, em particular económicos não vão ser resolvidos por uma enorme máquina de violência – repressão física ou psicológica, detenção arbitrária, ameaça, espia e bufaria dos cidadãos -, como tem sido o caso